Sobre os olhos.

Olho nos olhos donos do meu sorriso mais sincero. Olho nos olhos donos dos olhos meus. Preencho-me de seu olhar castanhamente belo. Encho-me de seu olhar verdemente admirável. Que me transborda, porém nunca vaza. Olhos seus que completam os meus.  E amo sem fim seu olhar para mim. E olho, olho nos olhos que vorazmente incendeiam os olhos de todos os olhares meus. 

Anúncios

Afogando na superfície aos olhos vendados.

Em tempos de catástrofe o lugar que o caos decide tomar é minha cabeça. Tantas tentativas de organizá-lo os transferiram para minha mente enganando meus próprios pensamentos. Os caminhos a tomar são claros demais para quem não quer enxergar. Porém, os que se recusam a ver por vontade própria traçam suas próprias cruzadas as trevas.

Sumo na neblina da vida para assistir a queda dos que pensam estar em ascenção, nado com a corrente e flutuo longe enquanto os deixo afundar em sua crueldade, desprendo-me sem fim no que um dia estive acoplado.

Subo para as margens ou até mesmo num barquinho, onde protegido do caos está meu coração.

Dos reencontros que me fazem te amar cada vez mais.

E eu me passo um café para a espera ficar mais confortável, ou menos dolorida, com o cheiro gostoso de felicidade como quando eu me passo com você.

A água fervente que se escorre lentamente pelo café torrado e moído que já é pó, o tempo que se escorre lentamente por mim mesmo e se escapa por entre meus dedos que desejam entrelaçar os seus.

O vapor que se sobe e vai embora, também lento. O pedaço de mim que parece arrancado e dói, ardendo tanto quanto o café se arde para virar líquido. Dói mais que a borra do café que é jogada ao lixo…

E espero, doloridamente espero, como o café espera encostar os lábios da boca de quem bebe. Porém o êxtase maior de sentir essa dor é o reecontro que terá meus lábios com os seus.

Felicidade assim não se faz como se faz o café, felicidade assim acontece como uma batida de coração, batida que fica maior e que transborda mais felicidade a cada reencontro teu comigo, meu com você!

Enfim bebo uma xícara de café, duas ou três… E me encho de amor por você.

Uma passagem só de ida.

Quem nunca embarcou por essa plataforma não vai entender. Mas só quem arriscou acender um cigarro é que vai entender.

Enferrujada e vazia era seu estado quando, por acaso, cheguei lá. Por entre minha fumaça, a fumaça do cigarro e a fumaça do próprio trem que chegava eu o vi. Pequeno porém enorme, silencioso e diferente de todos os trens que já tinha visto, mesmo não sendo muitos.

Implacáveis passageiros me acompanhavam por todo o trajeto sem destino, um tendenciando minha alma ao apego, esse o mais imponente, outro me causando apreensão, e tantos outros confundindo uma medíocre mente com lacunas muitas vezes sem preenchimento… Um vagão cheio de parcialidades e inexoráveis sentimentos que, como parasitas, se hospedaram em mim. Passageiros não do trem, porém de mim mesmo. Deixo-me consumir aos desgastes em lentidão, com fraqueza, mas sem pestanejar, sempre buscando a suprema felicidade, que não parece ser minha, nem sua, nem de ninguém. Nossa… É nossa felicidade com apenas um lado da moeda em jogo, um lado apenas jogando.

Chegou ao ponto que não era o seu. Nem o meu. O nosso. E ficamos dentro, dentro de nós mesmos. Sem volta, uma passagem só de ida.

Combustível para um vazio: 16 de julho de 2011.

O dia mal tinha começado, literalmente, afinal acabara de passar da meia-noite. Meu corpo encontrava-se no vazio de sempre, que nem a mais pura vodca ou qualquer cachaça nacional pudesse preencher. Porém, as tentativas continuavam. Sem nome, sem definição, o vazio não fazia bem nem mal, não doía, não ardia, nada. Vazio! Descompus e recompus o corpo, mas o nada continuava lá. Continuei tentando completar, até de fumaça tentei encher meus pulmões vazios. A mesma fumaça que entrava logo saía, quando ouvi num som macio e doce um “Oi”. Fui até onde vinha a voz que mexeu com o meu vazio e me fez escutar algo, sentir algo desconhecido de dentro de mim. “Qual é seu signo?”. Entre áries e aquário aquilo latejava e batia por minhas entranhas, algo batia dentro de meu próprio corpo vazio e eu não sabia o que. Mas como pode ter algo dentro do vazio? E tinha! A voz, sua voz e toda estrutura de onde ela vinha funcionaram como um combustível. Entrava suave a doce voz por meus ouvidos me preenchendo todo e junto com seu toque em minha pele fez bater um coração.

Naquele momento descobri meu coração que é todo seu.

Dos cafés.

Instável momento sem fim esse sem sua presença. Me desdobro em variadas xícaras de café contrariando a incerteza temporal que me flagela. Passo o líquido escuro e espesso por todas as mínimas partes e cavidades de minha boca e umedeço amargo os lábios. Engulo denso como quem dá um nó a seco no silêncio. Esboço amarelados os dentes que não sorriem enquanto me cai uma gota salgada expressando o sentimento que eu não quis dizer. E te espero, espero no infinito tempo vazio esse sem sua presença.

Perdido.

Estremeço tentando expulsar o que de mim não quero mais. Duvido que haja felicidade nesse itinerário que me faço, e das luzes as mais escuras me padecem o fracasso adiante. Sufoco inversamente o que já morreu pra ver se não me volta.

Foi assim que me achei: um fracasso em vida, um prodígio morto.